O conceito de Escola sustentável virou expressão da moda. Está nos projetos, nos sites das prefeituras, nas falas institucionais e nas semanas temáticas.
Mas hoje eu perdi o medo e vou falar o que realmente acontece e o que já vivi durante meu tempo de sala de aula.
Eu passei
11 anos dentro de escolas e nunca vi uma escola verdadeiramente sustentável.
O máximo
que encontrei foram lixeiras coloridas espalhadas pelo pátio. E, sinceramente,
isso está muito longe de ser transformação estrutural.
Sustentabilidade
não é decoração temática. Não é cartaz em papel cartão. Não é foto publicada no
site oficial. Sustentabilidade é investimento, é decisão política, é mudança de
mentalidade e de estrutura. E isso quase nunca acontece.
Neste texto, eu vou te mostrar por que a escola sustentável
existe no papel, mas raramente existe na realidade — e o que acontece quando
alguém tenta fazer diferente.
Placas Solares, Reuso de Água e Cooperativas de Resíduos Sólidos
Eu nunca
vi uma escola pública equipada com placas solares instaladas como política
educacional permanente. Acho que em um país tropical que recebe tanta luz e
calor na maior parte do país já deveria ter esses sistemas instalados.
Também Nunca
vi sistema de reuso de água funcionando de maneira planejada. Não seria nada
mal também.
Especialmente
em grandes centros urbanos em períodos de seca e calor os reservatórios estão
vazios, e nos períodos de chuvas cidades são levadas por água abaixo. E ainda
sim a culpa é da natureza, porque eu escuto: “Choveu no lugar errado”.
Não choveu em lugar errado. As prefeituras de cidades pequenas alegam que não tem dinheiro para grandes obras, principalmente para estruturar uma ideia dessa em uma escola.
Também nunca vi uma política concreta de reciclagem de resíduos sólidos vinculadas a cooperativas locais.
O que eu vi foram ações isoladas como
distribuição de panfletos , simbólicas e passageiras.
Lixeiras Coloridas Não São Sustentabilidade
Separar o
lixo é importante. Mas colocar quatro lixeiras coloridas no pátio e chamar isso
de escola sustentável é reduzir um conceito complexo a um enfeite
institucional.
Sustentabilidade exige muita mais que isso. Precisamos iniciar um processo prático de educação ambiental dentro de cada casa e claro dentro de cada empresa.
Não vou entrar
nesse tópico, para não fugir o tema principal. Mas as grandes empresas poderiam
ter ações mais expressivas no quesito sustentabilidade.
Cartazes Sobre Meio Ambiente Para Inglês Ver
Já
trabalhei em escolas onde o “projeto meio ambiente” consistia em produzir um
cartaz com os alunos. Geralmente era assim: Colocávamos no quadro a orientação
para produção do trabalho. Exemplo: “Pesquise ações concretas para tornar sua
escola mais sustentável.”
Então as
crianças colocavam no google imagens e copiava as ideias que tem por lá. A
criança entregava o cartaz e o projeto terminava ali.
Nenhuma
continuidade. Nenhuma mudança estrutural. Nenhuma transformação real. Os
próprios alunos percebiam que era superficial. E quando o estudante percebe que
algo é apenas simbólico, a mensagem que fica é perigosa: sustentabilidade é
besteira.
Proposta para Uma Escola Sustentável
Em
determinado momento da minha carreira, eu decidi tentar algo diferente.
Propus que os alunos (9ºano) arrecadassem tampinhas e garrafas PET durante quase um ano letivo inteiro.
A ideia era vender o material reciclável e reverter o valor
para instalar placas solares na escola. Sim, o investimento inicial é alto e a
ideia ambiciosa.
Mas a
médio e longo prazo a economia na conta de luz seria significativa. Depois de
amortizado o custo, o recurso poderia ser reinvestido em melhorias estruturais.
Era um projeto viável, educativo com muitas chances de se tornar um sucesso.
Aprendizagem Significativa e A Reação Das Crianças
Quando apresentei a ideia, não houve resistência. Pelo contrário. Os alunos abraçaram a proposta imediatamente.
Alguns sugeriram que, se a arrecadação fosse maior, poderíamos investir também em projetores e computadores para todas as salas.
Eles enxergaram possibilidade de melhoria concreta. Eles entenderam o impacto. Eles pensaram grande. Foi um movimento muito legal de assistir.
A Burocracia Das Escola Que Enterrou A Ideia Antes De Nascer
Para
minha infelicidade o projeto não chegou nem a começar.
A
coordenação não autorizou. A justificativa foi burocrática: venda de material,
entrada de recurso, compra de equipamento, tudo exigiria processos formais,
licitação, prestação de contas.
A ideia morreu antes de chegar aos pais. Eu não enfrentei. Já havia enfrentado o sistema em outra instituição e fui demitida por isso.
Aprendi, da maneira mais dura, que há limites silenciosos dentro da escola. Fiquei chateada. Mas segui.
O que
ficou foi a sensação de que as crianças estavam prontas para mudar. Mas quem
deveria mudar primeiro, não tinha vontade nenhuma.
O Que Uma Escola Sustentável De Verdade Deveria Ter
Sustentabilidade escolar precisa começar de cima e não tarefa exclusiva do professor. Parte dos recursos do Fundeb poderia ser destinada a projetos estruturais. Não é utopia. É decisão de prioridade.
Energia Solar Como Política Pública, Não Como Utopia
Placas
solares em escolas com alto consumo energético teriam impacto financeiro
rápido.
A economia gerada poderia financiar outras melhorias. Um projeto piloto em uma única escola já produziria dados concretos. Mas isso exige coragem tempo e dinheiro.
Sistema De Reúso De Água
Captação
de água da chuva para limpeza reduziria custos e ensinaria pelo exemplo. Vamos falar a verdade, em termos de custo e aplicação de tecnologia, isso é muito fácil de alcançar.
O aluno
aprende muito mais vendo a estrutura funcionar do que produzindo um cartaz
sobre economia de água.
Hortas E Produção Local
Hortas escolares vinculadas a políticas de alimentação e educação ambiental geram
aprendizado interdisciplinar real.
Sustentabilidade
precisa sair do papel e ocupar o espaço físico da escola.
Se Há Dinheiro Para Substituir Livros, Há Para Testar Sustentabilidade
O PNLD substitui coleções completas a cada quatro anos. É um programa estruturado e importante.
Mas não existe política consistente de reciclagem urbana vinculada a esse volume massivo de material descartado. Olha que incoerência: A cada quatro anos jogamos fora toneladas de papel e em sua maioria em lixos comuns.
A
pergunta que faço é simples: Se há orçamento para substituir livros inteiros
periodicamente, por que não testar energia solar em pelo menos uma escola por
município?
Não seria
necessário criar lei nova. Um projeto piloto poderia ser implementado por uma secretaria
municipal ou estadual sem muita burocracia.
Onde O Projeto Escola Sustentável Deveria Começar
Se eu tivesse algum “poder” eu começaria pelas escolas que mais gastam energia. É ali que o resultado apareceria primeiro.
Quando a economia começa a
ser visível na conta de luz, ninguém discute mais teoria — os números falam por
si.
E vamos ser honestos: enquanto isso, existem escolas onde o professor precisa contar cópias porque a máquina de xerox é controlada porque falta até papel.
E, mesmo assim, seguimos tratando sustentabilidade como se já
fosse uma pauta resolvida dentro da educação.
Por Que O Projeto Não Sai Do Papel
Ao longo desses anos todos, eu fui entendendo que o problema não é uma coisa
só. Não é um diretor específico, não é uma escola isolada.
É um conjunto de fatores que vão se acumulando e travando qualquer tentativa
de mudança mais profunda.
Existe medo da burocracia. Existe falta de autonomia real dentro das unidades. Muitas vezes há uma gestão acomodada, ou presa a uma visão antiga de escola.
Somam-se a isso prioridades políticas mal
definidas e uma cultura muito forte de simplesmente cumprir protocolo.
Faz-se a semana do meio ambiente. Entrega-se o
projeto temático. Publica-se a foto. Registra-se no relatório. E tudo parece
certo no papel. Só que, na prática, nada estrutural muda.
Até Quando Faremos Cartazes Sobre Sustentabilidade na Escola
Escola sustentável não pode continuar sendo uma expressão
bonita que a gente usa em reunião e esquece na prática.
Eu ainda acredito na escola, de verdade. Acredito nos alunos, porque já vi com meus próprios olhos o brilho deles quando perceberam que era possível fazer algo concreto, algo que realmente mudaria a estrutura da escola.
Aquela reação me mostrou que as crianças estão prontas
para pensar grande. Muitas vezes, somos nós, adultos, que limitamos o alcance
das ideias.
Mas acreditar na escola não significa fechar os
olhos para a incoerência. Depois de 15 anos vivendo o dia a dia escolar, eu
posso dizer com tranquilidade: não é simplesmente falta de dinheiro. É falta de
prioridade, escolhas e política e administrativa.
Enquanto sustentabilidade for tratada como
evento temático, como pauta de calendário ou como projeto pontual para gerar
foto institucional, continuaremos ensinando conceitos ambientais dentro de
prédios que não praticam aquilo que defendem.
Se você leu até aqui, eu quero te fazer um
convite muito direto: não deixe essa reflexão morrer na sua tela.
Comente aqui embaixo. Você já tentou
implementar algo concreto e encontrou barreiras? Já sentiu essa frustração
silenciosa de querer fazer diferente e esbarrar no sistema?
E, principalmente, compartilhe este texto com
outros professores. Envie no grupo da escola, no WhatsApp da equipe, publique
nas suas redes. Assim você contribui também com meu trabalho na internet.
Até mais!


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