Steam nas escolas é apresentado como sinônimo de futuro, criatividade e protagonismo estudantil. Basta abrir qualquer site de educação para encontrar fotos de laboratórios coloridos, impressoras 3D e adolescentes programando robôs com naturalidade.

Steam nas escolas

Mas quando eu comparo esse discurso com a realidade de muitas escolas públicas dos grandes centros urbanos, o que vejo é um abismo. E não é uma metáfora exagerada. É um vazio concreto, feito de falta de internet, ausência de computadores e salas superlotadas.

Enquanto relatórios internacionais celebram a cultura maker, aqui ainda discutimos o básico: energia elétrica, saneamento e conexão estável. Falar de robótica educacional em um prédio que não tem laboratório de informática funcional soa quase ofensivo.

O que me incomoda não é o conceito de Steam em si. É o contraste cruel entre o ideal vendido e o cotidiano vivido por milhões de crianças brasileiras.

Neste artigo eu quero expor o contraste entre a escola equipada que aparece nas propagandas e a escola pública que enfrenta a falta do básico.

O Que É STEAM E Por Que Ele Parece Tão Perfeito?

De uns anos para cá, começou a circular nas formações e congressos uma sigla que prometia reinventar a escola. 

Primeiro vieram quatro letras ligadas às áreas consideradas “do futuro”. Depois, alguém decidiu incluir a dimensão artística para suavizar o tecnicismo e tornar a proposta mais atraente. 

A narrativa era sedutora: integrar saberes, estimular pensamento criativo e preparar jovens para um mercado altamente tecnológico. 

O modelo foi estruturado em países com forte investimento em ciência e rapidamente virou referência internacional. O problema é que a importação da ideia foi muito mais rápida do que a construção das condições necessárias para que ela funcionasse aqui.

Em países como Estados Unidos, Coreia do Sul e Finlândia, escolas contam com laboratórios equipados, conexão de alta velocidade e formação docente específica para metodologias investigativas. 

Nessas realidades, projetos interdisciplinares são viáveis porque a infraestrutura acompanha o discurso.

No Brasil, algumas escolas privadas de alto padrão também adotaram o modelo. Elas exibem salas maker, kits de robótica, tablets individuais e parcerias com empresas de tecnologia. O marketing funciona. O conceito parece moderno, democrático e transformador.

O problema começa quando o conceito, que exige investimento contínuo, é tratado como se dependesse apenas de boa vontade das prefeituras. 

Por Que O STEAM Não Chega À Escola Pública?

Quando olho para os dados da pesquisa TIC Educação 2022, divulgada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, a narrativa da inovação perde o brilho. Cerca de 42% das escolas brasileiras não possuem computadores e internet disponíveis para os alunos. Entre as que têm conexão, 94% não contam com qualidade suficiente para uso pedagógico consistente.

Falar em programação e prototipagem digital quando quase metade das escolas não oferece estrutura mínima é ignorar a realidade. A recomendação técnica de 1 Mbps por aluno raramente é atendida. Muitas unidades sequer alcançam 50 Mbps para todos.

Há ainda escolas sem energia elétrica regular. O Anuário Brasileiro da Educação Básica de 2024 aponta que 3% das instituições não têm acesso à rede elétrica. Como implementar cultura maker em um espaço que depende de improviso até para iluminação?

Nos grandes centros urbanos, a desigualdade se expressa dentro do mesmo bairro. Enquanto uma escola privada exibe laboratório de robótica, a escola pública ao lado enfrenta falta de saneamento básico. 

Segundo o Censo Escolar 2023, milhões de estudantes frequentam escolas sem esgoto tratado ou água potável adequada. O discurso de inovação, nesse contexto, parece uma vitrine inacessível.

A Ilusão Da STEAM Sem Base Estrutural

Existe ainda um equívoco recorrente: acreditar que basta inserir tecnologia para resolver problemas históricos da educação. 

Dados recentes mostram que 70% dos universitários utilizam ferramentas de inteligência artificial nos estudos. Isso revela acesso e familiaridade tecnológica em determinada camada da população.

Mas essa realidade não representa a trajetória de muitos alunos da escola pública. Se a criança não teve acesso consistente a computador na educação básica, ela chega ao ensino médio em desvantagem. A desigualdade digital não começa na universidade. Ela começa na infância.

Além disso, cerca de 400 mil crianças e jovens de 6 a 14 anos deixaram de frequentar a escola em 2023, segundo a PNAD. Como falar em integração entre ciência e tecnologia para quem sequer consegue permanecer na sala de aula?

Quem Paga O Preço Desse Abismo?

Quando comparo a propaganda da inovação com os dados reais, penso nas crianças que crescem ouvindo que “o futuro é tecnológico”, mas estudam em escolas onde falta o básico. Elas não são menos capazes. São menos assistidas.

O Censo Escolar mostra também taxas de reprovação mais elevadas na rede pública, especialmente nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio. 

A repetência atinge de forma mais intensa estudantes negros e indígenas. A exclusão não é apenas digital; é acumulativa e histórica.

Enquanto isso, projetos de robótica são divulgados como solução universal. Não são. Sem formação adequada para o professor, sem tempo de planejamento e sem infraestrutura, o professor vira executor de roteiro pronto, quando deveria ser mediador de investigação científica.

Eu sinto que criamos uma narrativa confortável para quem já tem acesso. Fala-se de protagonismo juvenil em ambientes equipados, mas silencia-se sobre salas com 35 ou 40 alunos e um único computador funcional.

O mais doloroso é perceber que essas crianças assistem, pelas redes sociais, a vídeos de escolas estrangeiras com laboratórios futuristas. Elas sabem que existe algo diferente lá fora. Sabem que estão ficando para trás.

Inovação Para Poucos, Frustração Para Muitos

Não é apenas uma questão tecnológica. É simbólica. Quando uma escola pública anuncia “projeto Steam” sem condições reais, gera expectativa. Se o projeto não se sustenta, gera frustração.

A criança entende rapidamente quando algo é improvisado. Ela percebe quando a internet cai no meio da atividade ou quando o laboratório está fechado por falta de manutenção. O entusiasmo vira descrédito.

Enquanto isso, escolas de países desenvolvidos investem de forma sistêmica há décadas em infraestrutura, formação continuada e cultura científica. 

O resultado aparece em avaliações internacionais e na inserção desses jovens em carreiras tecnológicas.

Aqui, ainda lutamos para garantir matrícula na educação infantil. O Brasil está cerca de 900 mil matrículas abaixo da meta prevista para creches, segundo o Censo Escolar 2023. Se a base não é garantida, o topo não se sustenta.

E quem paga essa conta são as crianças que não escolheram nascer em determinado CEP.

Ao longo deste texto, eu quis ir além do conceito idealizado de Steam e expor o que raramente aparece nos anúncios: a distância entre o que se promete e o que se entrega. 

Não se trata de abandonar o modelo interdisciplinar. Trata-se de reconhecer que inovação sem equidade aprofunda as desigualdades.

Eu não consigo celebrar a modernidade educacional enquanto milhões de alunos estudam sem água potável adequada ou internet funcional.

Se ao terminar esta leitura você sentiu incômodo, talvez seja porque o contraste é mesmo duro. E deveria ser. Crianças que não têm acesso a recursos tecnológicos não precisam de slogans; precisam de condições concretas.

Se esse texto fez você refletir, compartilhe com outros educadores e deixe seu comentário. 

Precisamos mostrar os fatos.

Até mais!